Félix Contreras, ou melhor, Feliz Contreras

Textos: Osni Dias 

Fotos: Marta Alvim

Félix Contreras, defensor da revolução cubana, da música e da literatura da ilha de Fidel, continua jovem, vibrante e feliz. Amante do saboroso café brasileiro e do tradicional charuto cubano, o jornalista e escritor, de passagem por São Paulo, concedeu uma entrevista exclusiva na residência da jornalista e artista plástica Marta Alvim, onde abordou a Revolução
Cubana, a música e a poesia, numa descontraída conversa de quase duas horas, ao lado da também jornalista Flávia Amaral Resende. Autor dos livros La Música Cubana, Una Cuestión Personal, Porque Tienen Filin e Eu Conheci Benny
Moré, Contreras é taxativo: “Minha identidade é Cuba”, diz ele, rebatendo a provocações de uma jornalista paulistana sobre sua relação com a ilha. A seguir, fragmentos dessa conversa reveladora de um dos ícones da cultura cubana, que entre um gole e outro de  café, nos mostra uma outra faceta da ilha.

Construção de uma nova cultura
Existe um precedente que vocês conhecem. A revolução cultural cubana não
começou com a revolução, em 1959, começou no século XIX. Os burocratas cubanos não gostam que eu fale assim, mas eu não sou um burocrata. Eu tenho uma visão própria. A Revolução Cubana começou a fazer a grande revolução culta da ilha, graças a uma herança – grande, ou melhor, fabulosa – que foi a riqueza cultural do século anterior, com grandes pensadores. Entre eles, um padre católico maravilhoso, Félix Varela, que iniciou um pensamento próprio da ilha, ou seja, o cubano começou a pensar como cubano, não como espanhol. José Martí e José Caballero, com a revolução cubana, potencializaram essa herança. É difícil explicar a grandeza que herdamos.

Literatura
Para mim, o melhor romance da América Latina veio com Cecília Valdés. De Cuba
surgiu também um dos maiores poetas do século XIX. Falo sem medo de arriscar que é o melhor. Seu nome é José Maria de Heredia. Grande poeta, pensador, botânico, cientista e gravurista. Herdamos toda essa grandeza cultural do século XIX que, pela primeira vez em Cuba, tem um governo de homens cultos como Fidel Castro, por exemplo, que era advogado. Hemingway, em suas memórias. Che Guevara, que era médico e poeta.

Guerras de Independência
Temos um país onde a cultura sempre caminhou de mãos dadas com escritores,
poetas, romancistas. A primeira Guerra de Independência em Cuba durou 10 anos,
aconteceu de outubro de 1868 a 1878. Ela foi comandada por poetas, um dos líderes
se chamava Carlos Manuel De Céspedes. A segunda Guerra de Independência,
contra a Espanha, durou de 1895 a 1898 e foi idealizada e comandada por um
grande homem, talvez o homem mais importante de Cuba até hoje, José Martí. A
última revolução, de caráter de libertação nacional, foi comandada por Fidel Castro,
Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos, homens de cultura. Essa é uma coisa que
surpreende: Cuba sempre fica grávida de intelectuais.

Revolução cubana
Eu sou de uma província chamada Pinar Del Rio. Naquele momento, eu era um rapaz de 20 anos de idade, com segundo ano primário, que havia começado a trabalhar com 9 numa loja de frutas. Graças a essa revolução socialista, aquele garoto que pensava em uma carreira, uma formação, começou a sonhar. Não participei da luta armada, não tive esse privilégio, mas foi uma coisa muito bonita, me lembro bem do primeiro dia da Revolução… Eu me lembro que em abril de 61, saiu em todos os jornais da ilha: “Garotos que querem ir para Havana seguir carreira, todas as carreiras e profissões, devem se apresentar na Prefeitura”. Eu fui correndo, eu era engraxate, na rua. Minha mãe fazia sacrifícios para eu poder comer. Eu mesmo, hoje, sentado aqui, juro: penso que ainda é um sonho, se tudo aquilo era
verdade.

Novidade
Uma das coisas mais importantes da Revolução Cubana e que quase ninguém
conhece, vou contar agora. É um dos fatos mais importantes da cultura cubana.
Quando aconteceu a Revolução, o Che, com aquela visão, de olhar muito
longe, disse ‘nós vamos desenvolver Cuba dentro de 10 anos. Vamos precisar
de muitos intelectuais, cientistas e médicos, temos que nos preparar para
os próximos anos. Precisamos trazer jovens das províncias para estudar em
Havana. Vamos dar formação a eles, criar poetas, escritores, jornalistas. Fidel
disse a ele: “você ficou louco com a descida da Sierra Maestra? Onde vamos
colocar esses cinco mil caipirinhas?” “É muito fácil”, respondeu: “Nos hotéis”.
Os melhores hotéis eram para o turismo americano, a beira-mar. Ali eu estudei
por cinco anos. Graças ao socialismo cubano aquele garoto de província que
não tinha mãe nem pai, nem o que comer, hoje tem livros publicados em 14
países. Isso só aconteceu com uma revolução radical, e não reformista – por um
governo que coloca em primeiríssimo lugar a ciência e a cultura.

Século XX
A primeira década do século XX, muito antes do triunfo revolucionário, viu
surgir grandes escritores, romancistas, contistas e poetas. Na década de 30,
mais ainda. Aparece a estética nova, quando começa a mistura da cultura
negra com a cultura branca e o surgimento da grande música e da literatura
afro-cubana, bem como a poesia negra, com poetas de destaque. Na década
de 40, aparece a melhor revista de literatura da América Latina, a Origens,
de um grupo de poetas de mesmo nome. Aparece pela primeira vez o “conto
novo”, um novo romance e a música, que foi de uma riqueza enorme – aparece
o mambo (1942), para mim, o melhor gênero da música cubana, e também o
cha-cha-cha, na década seguinte, quando floresce também o cinema.

Cinema cubano
Como Cuba pode produzir um cinema tão bom, tão desenvolvido? A nossa
sorte é que a burguesia cubana sempre teve inclinação pela cultura. O
consagrado diretor Tomaz Alea se notabilizou dirigindo Morango e Chocolate,
é estudioso do novo realismo italiano. Conto isso para reforçar a ideia de que
a revolução explorou aquela herança de um maravilhoso passado cultural. O
propósito da revolução era continuar aquela, anterior.

Divergências

Nós brigamos muito com os soviéticos. Cuba não aceitou a imposição de um
modelo. Em julho de 1977 o governo cubano mudou todo o Ministério da Cultura,
composto por políticos dogmáticos. Atualmente um grande intelectual cubano
ocupa a pasta da cultura, o Abel Prieto, homem que enfrenta Fidel e o contesta
publicamente. “Vocês poetas vivem muito bem, não tem o que reclamar”, disse
uma vez Fidel Castro. Prieto logo lhe respondeu: “Mentira sua, nós poetas somos
como todo e qualquer trabalhador cubano”. É uma piada, disse logo Fidel. “A piada
é sua e uma piada de Fidel custa muito”, devolveu o ministro.

Década de 80
Aconteceu uma nova explosão da cultura, com uma nova geração de escritores,
poetas, músicos e cineastas. Eu sou do primeiro grupo de poetas nascidos graças
à revolução, sou membro da nova poesia, grupo esse nascido em 68, chamado
Caimán Barbudo (jacaré com barba, que simboliza a rebeldia), todos formados pela
revolução.

A ausência do Che
Era uma figura importante, um exemplo. Mais do que a revolução, gostaria de falar
sobre o pensamento da revolução. Um verdadeiro revolucionário é sempre crítico
e Che era um homem crítico, claro, naturalmente. Quando Che desembarca do
México, em 56, já vinha com uma formação intelectual, um homem que dizia as
coisas de memória. O chamavam de “loco” Guevara e diziam que ele não podia
ser revolucionário,pois “vive lendo poesia, é um bicha, maricón”. E Che recitava…
Era um homem romântico, um verdadeiro revolucionário. Atirava, mas também lia
livros com poemas de amor. Um homem completo. Quando eu estudava, ele e Fidel
faziam visitas às escolas. De madrugada. Eu dizia “filhos da p…, vem nos acordar de
madrugada e ainda ficam conversando até amanhecer”, lembra, aos risos…

Leia também: Entrevista de Félix Contreras para a revista Caros Amigos:
http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=revista&id=149&idite
ns=775

Entrevista de Jotabê Medeiros, para o Estadão:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100821/not_imp598106,0.php

Sobre Caimán Barbudo http://www4.usp.br/index.php/saude/9890
http://www.caimanbarbudo.cu/

Mais sobre a entrevista, jornalismo colaborativo, poesia, cinema, música e arte, na edição completa da Kalango, aqui https://revistakalango.wordpress.com/2011/07/11/kalango7/

Leia aqui http://issuu.com/osnidias/docs/kalango7

Ou baixe aqui: http://www.mediafire.com/file/u2fbflk667cyshr/KALANGO7.pdf

 

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