Como biografar alguém vivo

Divulgação/Rui MendesEm julho de 2010 encontramos João Luiz Woerdenbag Filho – o Lobão e Claudio Julio Tognolli – considerado um dos mais brilhantes profissionais na área do jornalismo investigativo do país, no Congresso da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em São Paulo, para a palestra 50 anos a mil: como biografar alguém vivo. O livro, lançado em 2010, chegou a ocupar o terceiro lugar no ranking dos livros mais vendidos na categoria não-ficção da Livraria da Folha. Abaixo, Tognolli fala como foi o processo de produção do trabalho. Publicado na Kalango #7.

“No livro do Lobão fizemos, em princípio, uma série de gravações dele, ou seja, registramos suas confissões”, explicou Tognolli. O jornalista disse que o exercício da biografia pressupõe um método, mas Lobão não se sentiu confortável com essa ideia. Foi então que ele teve a percepção de que o contato com o gravador não era interessante e decidiu mudar sua estratégia, abortando o método inicial. Tognolli passou então a investigar a vida do biografado. “Almoçava com o Lobão três vezes por semana, acompanhado por um amigo jornalista”. Nesse processo, que durou aproximadamente um ano, o jornalista comprou todos os bancos de dados possíveis sobre o artista. Esse processo ele chamou de “aggiornamento” (de agiornar, ordem do dia). Depois disso, passou todo o material às mãos de Lobão. Lobão foi ainda questionado sobre determinados acontecimentos em sua vida, fatos marcantes e bastidores de sua carreira. “É necessário perguntar ao entrevistado o que ele pensava naquele momento”.

A segunda fase foi mais técnica. Tognolli pegou de empréstimo várias  biografias. Uma delas trazia, ao final dos capítulos, “o outro lado” da história. Foi quando apresentou a ideia a Lobão, de trazer personagens para confrontar os fatos, confirmando ou destruindo o que ele havia escrito, ou seja, potencializando esses momentos. “Lobão fez descobertas de si mesmo. Uma delas de que era esteta do Comando Vermelho – facção criminosa do Rio de Janeiro – na época em que teve contato com o grupo, na prisão.

A terceira parte do trabalho foi uma busca por processos, documentos com advogados, enfim, material do tempo em que a figura do músico se tornou vítima das autoridades policiais e foram criados certos estereótipos do músico, como “elemento mal formado socialmente, psicopata e epilético”, entre outros, termos encontrados em documentos da época. Entretanto, o músico disse ao jornal O Globo que “todos que comentam sobre o livro se impressionam com o grau de  doçura que a narrativa apresenta”, garante. “É um livro elegante, presumo. Não vou brincar com a história de uma vida que tenho tanto carinho e orgulho. Fazer uma autobiografia requer muita responsabilidade, atenção e generosidade no coração.” Na última fase, já no processo de edição, Tognolli foi ao encontro do produtor Roy Cicala

(50 anos a mil), que produziu um disco que seria lançado com o livro. Para se ter uma ideia, Cicala mixou as músicas dos álbuns de Lennon, de Imagine (1971) a Double Fantasy (1980). Ao final, Tognolli revelou que o almoço diário com Lobão fez parte de um processo de rechecagem. E conclui que a paciência é um exercício, pois, segundo ele, nesse momento o entrevistado tem os “insights” em seu processo de reflexão. Agora é ler o livro e conferir.

Claudio Julio Tognolli é professor da ECA/USP e membro da Abraji http://www.abraji.org.br/

http://twitter.com/#!/claudiotognolli

http://www.lobao.com.br/bio.php

Veja entrevista do programa Entrelinhas, da TV Cultura, aqui http://www.youtube.com/watch?v=JOluFqoVNWc

MP3 e trechos do livro, aqui: http://www.ediouro.com.br/50anosamil/default.php

Mais sobre a entrevista, jornalismo colaborativo, poesia, cinema, música e arte, na edição completa da Kalango, aqui https://revistakalango.wordpress.com/2011/07/11/kalango7/

Leia aqui http://issuu.com/osnidias/docs/kalango7

Ou baixe aqui: http://www.mediafire.com/file/u2fbflk667cyshr/KALANGO7.pdf

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