Quadrilha da morte

 

Cláudio Cavalcante_Pipa

 Marcelino Lima

Caim pereceu vítima da ira de Abel, que, depois, atormentado, jogou-se em um poço. Santo Cristo levou junto consigo Jeremias, mas abatido por um tiro certeiro de Winchester 22, também tombou. Horas antes da overdose, Maria Lúcia vira Pablo morrer, cavalgando-a ensandecido. Luís estava no lugar errado, na hora errada. Gilda perdeu muito sangue ao dar a luz. O filho dela, dezoito anos depois, a onda levou. A bebida que deram para Marcos continha cicuta. Durante uma ronda pelo bairro, Khalil teve o azar de ser confundido com bandido. Manoel a cobra picou. Tião e a mula rolaram precipício abaixo durante tempestade inesperada. O dono da pizzaria vacilou tentando salvar o máximo possível durante o incêndio. Um desastre custou o adiamento do início da temporada de futebol. Só as bolas sobraram intactas no ônibus capotado. Naquela mesma sinistra curva, um ciclista ficara debaixo das rodas de um caminhão, um ano antes.

Entre os vitimados por doenças conta-se dona Belarmina, já nonagenária e quase cega. O óbito de Lili está registrado como “causas naturais”. A quimioterapia não conteve a metástase pelo corpo de Raimundo. A rejeição por Tereza explica a cirrose que consumiu o primo apaixonado. Acusava-o de ter pernas estúpidas. Como não amava ninguém, ficou para titia, desencarnou intacta. Os jornalistas trigêmeos Gabriel, Miguel e Rafael conseguiram imunizar a moléstia de nascença. A notícia ruim é que fragilizaram pulmões, rins, e estômago, respectivamente. A tia de Joaquim foi dada como desaparecida três semanas depois de fugir do manicômio. Francisco ignorou a cancela abaixada antes da passagem de nível. Não parou. Não olhou. Não escutou. O maquinista, de tanta tristeza, tomou quatro copos de água sanitária. O circo teve de baixar as lonas depois que o leão, em fúria, invadiu o trailer do trapezista. Jussara não resistiu à espera por um leito no único hospital da cidade enquanto ardia em misteriosa febre. O poeta considerou dura demais a crítica ao livro com o qual esperava sair do anonimato. Ao editor reservou três projéteis. Dois alvejaram a secretaria do desafeto. A última bala não repartiu com ninguém.

Também teve aquele menino que queria apenas resgatar a pipa presa ao fio de alta tensão. Antes dele, várias facadas gelaram o coração de Juliana. O mesmo aço interrompeu a roda gigante para João. Com um espinho no peito e sangue nas mãos, o corpo do assassino foi encontrado, e ato contínuo, enterrado, na beira do rio. Zé, naquele domingo, só queria chupar sorvete no parque, entregar uma rosa vermelha à namorada.

Para escrever um final feliz, nestas últimas linhas pensei em ressuscitar cada um dos citados nesta crônica. Entretanto, para quem ainda não soube, ao comemorar um gol do meu time há alguns dias aproximei-me demasiado do parapeito do apartamento e despenquei feito um pacote bêbado por treze andares. Com meu corpo ainda atrapalhando o sábado, J. Pinto Fernandes surgiu do nada e conduziu-me por um longo túnel de luz até o lugar do qual escrevo agora, com os demais todos ao meu redor. Fernandes, que ainda não havia entrado na história, ostentava no peito uma medalha, honraria que obteve dois meses depois de ter conseguido se naturalizar filho de Tio Sam e ser aceito em uma unidade ianque para combater vietcongues.

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