Echarpe modelito FLIP

echarpe

Moacir de Souza

Ao se ter uma boa impressão de alguma coisa à primeira vista, quer dizer apenas que precipitamos os acontecimentos. Apliquei  meu pensamento pessimista-realista à Festa Literária Internacional de Paraty durante dez anos. Minhas palavras sobre a FLIP do ano passado apontam o tamanho de minha resistência:

FLIPVIP – A festa literária de Paraty não é evento para o Zé da Silva. Só estende seu tapete vermelho para quem tem nome comprido e um cartão de crédito. Um pacote por cinco dias literários na simplória Pousada Eclipse vai de R$ 1240,00 a R$1760, 00, com café da manhã e WI-FI. Coisa de alfarrábio.

Para leitores mais exigentes, a Pousada do Sandi oferece um pacote transitando entre R$3982,00 a R$5522,00 com direito a lençóis de 300 fios com algodão egípcio, business center e pub inglês. Coisa de megastore.
Para degustadores da culinária caiçara, o restaurante Banana da Terra tem um preço médio de R$80,00 por pessoa. Aos que apreciam uma simples sardinha, o Café Paraty serve pratinhos na média de trintinha por candango.
Querendo ver seus gênios da literatura parlando na sua frente, você vai pagar R$40,00  por discurso. No telão sai por dez pilas.
Melhor não somarmos essa odisseia pra não cairmos na literatura da depressão.
Este final de semana terei um encontro com os autores esquecidos da minha estante. São bons, baratos e oferecidos.

Nesta 11ª edição descobri que uma teoria sem aplicação flutua em contemplativa ociosidade.

Eu estava certo no substantivo.

Os pacotes continuam proibitivos. Minha alternativa foi hospedar-me em casa de morador, fora do Centro Histórico. O bolso agradeceu e tive a oportunidade de conhecer a periferia do Paraíso Literário.

Falando dos frequentadores desse tipo de evento, digo apenas que não gosto daquelas senhoras com pose aristocrática como se tivessem lido os grandes gênios da humanidade, mas não passaram da picaretagem da autoajuda. Lá estavam elas, aos montes, com aquele olhar esnobe de Danuza Leão e Maria Lúcia Dahl. Aquelas roupas com ar de superioridade de classe, aquelas fatídicas echarpes combinando com vestidos e blazers, aquele modo muito educado nos restaurantes mais caros, aquele jeito enfadonho de conversar… Não apenas não gosto dessas senhorinhas, sou contra!
Eu estava errado no adjetivo.

A divulgação de bons autores nacionais é coisa bem-vinda até para essas senhorinhas. Os eventos Off  FLIP e a Flipinha tentam colocar algum livro no inóspito mundo desletrado da molecada.

Músicos, pintores, cordelistas e poetas marginais fazem das ruas empedradas de Paraty um organismo vivo e menos ditado pelo cânone oficial. As ruas são sempre mais interessantes porque  imprevisíveis.

Da programação oficial, destacaria dois momentos realmente palpitantes. O cineasta Eduardo Coutinho, além de ser um documentarista do soco no olho, também é um sujeito sem frescura no trato com a palavra.  Seu casaco surrado contrastava com as echarpes empoladinhas daquelas senhorinhas conservadoras. Foi uma provocação maravilhosa.

A voz langorosa do mediador Eduardo Escorel fazia outro contraste com o pensamento cortante daquele homem franzino que fuma três maços por dia.

O ápice mesmo foi ouvir  Coutinho dizer: “Se eu fosse eleito ditador (sic), acabaria com todas as concessões de televisão no Brasil. É um horror!!”

A mesa com Marcos Nobre e André Lara Resende (ex-ministro do FHC) também fez valer a viagem. O tema era sobre as manifestações das últimas semanas e a crise da democracia representativa. O mediador era William Waack. Documentos da Wikileaks apontaram o repórter da Globo como informante do governo americano. Waack é citado não apenas uma, mas três vezes em reuniões com funcionários da Embaixada Americana. Dois dos documentos que o citam são considerados “confidenciais”.

Achei incrível parte da plateia vaiar o X9, por duas vezes, enquanto as senhorinhas de echarpe defendiam o magano com aplausos envergonhados.

Um casal foi posto ao chão ao tentar fazer um protesto com uma bandeira que ninguém conseguiu ver.

Já aperreado com o público, o araponga da Globo falou uma das maiores estultices do jornalismo de Brasilândia: “Não é possível brigar com a notícia.”

Para quem trabalha na camorra da manipulação da informação, ele foi coerente.

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