Literatura nativa escrita por índios

 

Olívio Jecupé

 Por Olívio Jecupé

Sei que no passado, por exemplo, nos anos de 1970 não se conhecia autores indígenas com livros publicados no Brasil, mas hoje está muito diferente porque temos vários escritores indígenas que escrevem e têm livros publicados, ou textos em revistas. Isso é muito bom porque mostramos ao mundo que não somos só contadores de história oral, mas pessoas capacitadas que têm a sabedoria de escrever belas histórias. Por isso hoje podemos ver grandes escritores indígenas, como, Darlene Taukane, Manoel Moura, Giselda Jerá, Jeguaka Mirim, Adão Tataendy, Cristino Wapichana, Eliane Potiguara, Jaime Dessano, Rosi Tapuia, e tantos outros que poderia mostrar aqui nesse texto.

Sendo assim, acredito que a literatura nativa escrita por nós, é muito importante porque vai chegar até os não índios e fará com que a sociedade conheça melhor os povos indígenas, e com isso vai valorizar mais a gente em geral. E nossa escrita mostrará ao mundo a nossa capacidade de escrever, pois o povo indígena sempre foi mal visto como incapaz. E através dela, podemos mostrar que nós também somos capazes de termos nossos livros publicados.

Quando eu iniciei a escrever, em 1984, eu não conhecia nenhum escritor indígena com livro publicado. Aliás, as editoras não davam muito valor, mas agora parece que está mudando essa mentalidade, pois as editoras estão publicando mais livros sobre o tema indígena. Isso é bom porque com a nova lei 11.645, onde terá que falar sobre os povos indígenas, os professores terão mais assunto para discutir, e melhor, mais conhecimento para ser discutido nas salas de aula. Sei que antes os professores falavam sobre os povos indígenas, mas não tinha muitos livros sobre essa questão. Por isso, nós índios temos que escrever mesmo, e com sabedoria, porque, levaremos nosso conhecimento ao mundo.

Também, quero dizer que será importante para nossas aldeias, porque nas aldeias chega muitos livros enviados pelas secretarias de educação, mas livros que não é sobre índios. E a partir de agora eles poderão enviar livros de autores indígenas, para que as crianças tenham mais conhecimento sobre os temas que chegarem.

Mas sei que muitos na cidade acham engraçado ver um índio escritor com livros publicados. Muitos viam o índio como atrasado, agora que escrevem, veem com outro preconceito: até dizem que não são índios porque índio é contador de história oral. E nós índios temos que entender que na sociedade não indígena nem todos entenderão nosso ponto de vista, mas devemos escrever mesmo recebendo críticas deles porque muitos outros irão nos entender e nos valorizar.

Aliás, antes eu sofria muito por não ser entendido. Hoje muitos me valorizam e juntos valorizam nosso povo indígena, é que a sociedade é complexa, se um índio faz uma coisa errada, eles dizem que os índios são assim, por isso, quando eles valorizam um índio escritor, aí valorizam os índios.

Também gostaria de dizer que hoje mudou muito no Brasil, temos escolas dentro da própria aldeia e nossas crianças aprendem a ler e escrever, aliás, nas duas línguas, português e na língua nativa, por exemplo, na aldeia krukutu, onde moro, escrevem em guarani e português. E nossas crianças continuam ouvindo história oral junto com seus pais, e, sendo assim, surgirão muitos autores e que poderão publicar livros também, e acredito que em breve teremos muitos escritores indígenas, o que facilitará mais a sociedade a nos compreender melhor.

Como exemplo, eu tenho alguns filhos e quero citar um exemplo, tenho um que se chama Jeguaka Mirim, que nasceu em 2001 e desde pequeno ele gostava de ouvir história e sempre eu contava alguma pra ele antes de dormir, aí com 6 anos ele entrou na escola e logo aprendeu a ler, com isso ele começou a ler meus livros, isso me deixou contente, porque vi que gostava de ler, aí com oito anos ele pegou um caderno e começou a escrever algo, depois ele quis digitar no notebook, e pude ver que ele tinha talento para escrever, agora posso dizer que ele é escritor, e já tem um contrato assinado com uma editora e em breve o Brasil irá conhecer o pequeno guarani escritor. Por isso, sei que outros kurumins no Brasil poderão publicar um livro também. Por isso é importante que a sociedade apoie os povos indígenas escritores.

Olívio é escritor de literatura nativa, poeta e Presidente da Associação Guarani Nhe´e Porã, morador da aldeia Krukutu, Parelheiros – SP

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