A moça morta

 

moca morta

Pedro Simão

O estampido que ecoou sob as árvores da Praça da República fez surgir um quadro extasiante feito de luz, sombra, formas e movimentos. Expressionista.

A multidão de aves que se lançou em revoada impressionava. Pássaros de todos os tipos, centenas deles, de tantos matizes, em vôos circulares, recortados sob a luz intensa do sol, alguns enegrecidos por ela, desaparecendo por trás de uma copa de árvore para reaparecer logo a seguir, ao mesmo tempo em que cruzavam com outro, e outros, muitos outros.

A luz oblíqua, que escorria entre as folhas, galhos e troncos do arvoredo, iluminava cantos, destacava recantos, erguia sombras desnaturais, cromatismos impensáveis. Descobria reflexos e escondia realidades. Por um átimo, a praça mergulhou na brandura plástica de uma tela centenária.

No instante seguinte a tela desfez-se, rompidas as faixas de luz. Sombras e mais sombras moviam-se de todos os cantos, na direção do som, assustadas, curiosas, amedrontadas e céleres.

Como pássaro desgarrado, um rapazote lançou-se a toda por entre a multidão e invadiu a avenida Ipiranga. Ágil, correu, parou, pulou, novamente correu, venceu o rio de automóveis, meteu-se pela Barão de Itapetininga e desapareceu.

Em algum recanto da praça, deitada sob a luz forte da tarde e suas sombras atrozes uma garota, com seus vinte e poucos anos, agonizava. Branca, cabelos loiros, do peito esvaia sua vida na viscosidade vermelha do sangue. A cor não se adequava ao cenário da praça. Também não se encaixava com o turbilhão de cores barulhentas dos curiosos. O vermelho, a dança de cores vivas gritavam sob a placidez da praça com suas sombras diagonais.

E a garota. E as folhas do chão, secas. Da boca, uma palavra qualquer se esforçava por ser dita. Inútil. Enrodilhados em seus cabelos espalhados pelo chão, gravetos, pedaços de plantas mortas e até mesmo algum lixozinho pareciam querer enfeitar a garota [atavios macabros]. Uma das pernas permanecera estendida rente ao chão. A outra, o joelho para o alto, semi aberta, afastada do corpo. A minissaia escorrera em direção ao quadril. Imposta pela tragédia, a posição das belas coxas, já prestes a perder o viço, desfazendo-se do calor e macies expunham suas intimidades, feitas de rendas macias. Diante da soberania da morte os pudores perdem o sentido.

Meu pensamento voou seguindo os pássaros. Assalto? Ciúmes? Paixão não correspondida? Acidente? Sabe-se lá, meu Deus. A moça já estava morta naquele instante e as conjecturas não importavam mais. Da vida exuberante, sobrara apenas a matéria inerte, fria como o chão que a amparou, sem brilho como as folhas secas que lhe serviram de colchão. O corpo, estendido na calçada da praça, expunha intimidades que a ninguém mais interessava. Nem mesmo ao atirador magricela.

A Kalango na íntegra você encontra AQUI.

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