O medo que nos persegue

Éramos jovens, entusiasmadas com qualquer tipo de conhecimento literário que nos enriquecesse.

Sonia Mara Ruiz Brown*

Passamos, então, minha amiga e eu a assistir a discussões na Academia Paulista de Letras, nas noites de sexta-feira.
Numa dessas ocasiões, depois de termos participado de um debate sobre Augusto dos Anjos, nos pusemos a caminho de casa. Saímos pensativas, refletindo sobre o poeta peculiar sobre quem havíamos ouvido, o bardo “filho do carbono e do amoníaco” demarcado por uma dimensão cósmica e uma angústia moral.
Pouco conversamos durante a viagem de ônibus, pois as palavras poderosas e chocantes de Augusto dos Anjos ressoavam em nossas mentes:

“Já o verme – este operário das ruínas-
Que o sangue podre das carnificinas
Come, é à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra! ”

Finalmente chegamos ao ponto de descida e caminhamos em direção de nossas casas, mas, para aí chegar, tínhamos que passar ao lado do cemitério, fato que não nos impressionava em vista da constância do mesmo roteiro diário. Naquele dia, todavia, a escuridão, o gemido do vento, as reminiscências da voz do poeta nos alertando sobre o estado putrefato dos corpos, além do latido raivoso e ruidoso de cães que queriam nos atacar, paralisaram nossa ação. Não podíamos mais caminhar, pois o medo estancou-nos, fez nosso coração acelerar e a temperaturado corpo subir. Olhávamos uma para a outra como que indagando sobre o que poderíamos fazer, mas não nos movíamos, aterrorizadas com a possibilidade de os cães nos machucarem. Nossas pernas tremiam, nosso coração pulava dentro do peito.
Inesperadamente abaixei e sinalizei para minha companheira que pegasse pedras no chão para jogá-las além dos cães e os distraíssemos. Foi o que fizemos, e o resultado, o esperado. Retomamos, então, nossa caminhada mais aliviadas, porém ainda envolvidas por um pessimismo “schopenhauriano”, pela angústia funda do poeta que tanto nos impressionou.

Versos íntimos

“Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-se à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

É nesse ambiente aterrorizador que vivemos e do qual buscamos nos afastar.

* Sonia Mara Ruiz Brown é doutora em Língua Portuguesa/USP.

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