Um cobertor e um saco de moedas

Maurício Andrade *

Este ano vamos ter um dos invernos mais rigorosos que já tivemos aqui na Terra Brasilis, mas uma coisa eu garanto: não será pelo frio glacial. Li recentemente um pensamento que me assombrou, sobre a hipocrisia de doação de cobertores. Depois de doar seu cobertor, sua consciência, afinal, se tranquiliza. Você continua vendo os olhares famintos pela janela, mas não há uma política pública que vá além a fim resolver a questão. A pessoa em si, deixou claro que também não faz mais isso (ajuda com agasalhos ou cobertores).

Mas quem está por trás da alma? O governo ou a vontade humana? E se fossem nossos filhos, pais ou pessoas amadas que estivessem na rua, salvas com um cobertor e uma sopa quentinha por alguém sensível o bastante para estender a mão? Como temos usado nossa percepção em face das avalanches instantâneas de informação? Como nos posicionamos diante da situação transitória da Humanidade? São muitas perguntas. Seria fácil ficar elucubrando sobre todas elas, filosofando, enquanto alguém morre na calçada ou olhando pela janela.

Logo teremos outro governo, outros governos virão, e em que nos apoiamos para transformar a sociedade? É uma história que não muda – se não mudarmos de opinião, de postura e de ação. A questão é que nada mudou, apenas os lados da moeda. Se a alma não muda, a história que cada alma vê também não vai mudar. O “coitadismo” e a soberba são os dois lados dessa mesma moeda, ela apenas gira sobre a mesma mesa. É preciso derreter essa moeda e usar sua prata para pagar a educação.

A questão é que nada mudou, apenas
os lados da moeda. Se a alma não muda,
a história que cada alma vê
também não vai mudar.

Falamos demais, criticamos demais, nos empoderamos demais de razão e da pseudoverdade, que é conveniente aos nossos sentidos, buscamos o lado que justifique nossas crenças, ou buscamos as crenças que justifiquem nosso lado. A moeda apenas gira, outra vez, e a alma se atordoa, simplesmente porque a alma não é a moeda, é a mão que a gira. Talvez fosse mais fácil darmos as mãos e, outra vez, usarmos o valor de nossas moedas.

Podemos argumentar, ad aeternum, sobre e o que desejamos que acabe em nossa sociedade, mas, se não vencermos a hipocrisia, o que aparentemente se foi, apenas mudou o lado, afinal, temos um saco de moedas para isso. Enquanto continuarmos a ouvir pessoas dizendo que simplesmente acham hipocrisia dar um cobertor, por causa de uma política pública, e assim, mudar sua postura humana para desumana, enquanto pensarmos que é algum governo que trará salvação, ou que até, mudando a linguagem, resgatará uma sociedade à justiça (que ainda nunca houve por completo), continuaremos a discutir o sexo dos anjos (e não é isso que está acontecendo?) colocando novos “salvadores” no altar.

Enquanto pensarmos que é algum governo
que trará salvação, ou que até, mudando
a linguagem, resgatará uma sociedade à justiça,
continuaremos a discutir o sexo dos anjos

Em um tempo onde nunca houve tanta intolerância, fundamentalismo e ativismo, para rimar com nossa hipocrisia, é preciso um exorcismo da consciência. Não feita por alguém, mas levada às últimas consequências do amor, por cada um de nós, pois nenhuma política salvará a alma, a menos que haja uma política da alma, que é o bem e o amor ao próximo. Sem partido, sem cor, sem raça, sem ideologia, sem lado da moeda, apenas uma mão estendida com um aperto de mão, um olhar sincero e, quem sabe, um “cobertor’.

Talvez um dia consigamos viver uma holarquia social (não confunda com oligarquia), um sistema integrado onde o “um” compõe o todo e participa do todo em sua própria dimensão, livremente e de forma integrada. Parece complexo, tema para uma próxima. Mas precisamos sair das “castas mentais”, e é aí que elas não deveriam existir. E consagrar a sociedade primeiro à alma, no bem ao próximo e depois à política, talvez assim consigamos parar de girar a moeda.

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